Há limites para o conhecimento científico?

Tenderá o limite do Conhecimento Científico ao infinito?

Somos testemunhas do progresso da humanidade na área científica e apoiamos o aperfeiçoamento dela através das nossas exigências racionais comuns. No entanto, sempre atingimos um conhecimento científico limitado e pronto a ser refutado, se não por outra teoria mais completa, certamente pela natureza em si. O ser humano procura o conhecimento isolando-se para observar de longe e sem preconceitos a realidade. Assim que corrobora as suas teorias, elas são testadas pela aplicação prática e/ou crítica. Verdade seja dita, se somos seres que se alimentam intelectualmente por necessidade inadiável, por outro lado somos sempre surpreendidos pelo aumento de informações ausentes derivadas da reduzida informação que apreendemos. Nós coleccionamos ideias, construímos conjecturas, hipóteses e teorias, e ainda assim, nos afastamos do conhecimento absoluto.

Primeiro, o método indutivo-exprimental deve ser caracterizado já que confere rigor e fiabilidade ao conhecimento científico. Este método é constituído por 4 fases: a primeira consiste na observação dos fenômenos que deve levantar questões; a segunda é caracterizada pela formação de hipóteses que permitam explicar e encontrar a relação entre teorias ou hipóteses já formuladas; a terceira está baseada na própria experiência, na comprovação prática das teorias ou hipóteses; e por fim, a quarta que consiste na realização científica da generalização da relação descoberta e comprovada pela experiência – surge, então, a lei ou principio que fará parte de um paradigma cientifico. Sem duvida, tal método confere bastante rigor dada a aplicação de uma estratégia de comprovação.

É um facto que a descoberta científica é governada pela lógica invariável, como alegou uma vez Karl Popper. Este autor defende a via da racionalidade como a única capaz de obter o conhecimento científico, embora admita que a racionalidade assenta na consciência da sua falibilidade. Outro factor importante é que Popper recusa certezas absolutas e a sacralização da razão, afirmando um saber conjectural (hipotético-dedutivo). Para ele , o trabalho do cientista não pode jamais ser comprovar teorias. Ao contrário, um cientista deve submete-las as mais duras críticas e tentativas de refutação (testabilidade) a procura de falhas (falsificabilidade). Por isso, Karl Popper critica o indutivismo, método experimental comum a concepção clássica da ciência.

Assim, podemos concluir na perspectiva de Popper que a descoberta cientifica, governada pela lógica invariável, é constituída por 3 momentos sucessivos. Primeiro, a construção de conjecturas, hipóteses ou teorias na tentativa de resolver os inúmeros problemas e mistérios sugeridos pelo universo; depois, as conjecturas, hipóteses ou teorias devem ser submetidas aos testes mais rígidos, as mais fortes críticas e tentativas de refutação ( testabilidade), tentando detectar falhas (falsificabilidade); e finalmente o cientista deve partilhar a teoria, abertamente e sem certezas absolutas e individuais, com a comunidade científica para que esta teoria possa ser discutida e analisada.

De qualquer modo, uma teoria nunca é definitiva, apenas corroborada. Isto significa que ela resiste aos testes mais rígidos possíveis ao homem actual e que ela é simplesmente provisória, uma aproximação da verdade. Logo, Popper define o fim último da ciência (conhecimento científico) como uma tentativa com empenho em alcançar a verdade; tendo consciência da inevitável falibilidade da razão humana pois todas as teorias estão condenadas a serem falsificadas. De facto, tais teorias não são definitivamente verdadeiras, só não são, ainda, falsas.

Há outra questão que fora debatida por filósofos em relação ao conhecimento científico: a sua progressão. Quando nos referimos à progressão da ciência, temos que considerar duas perspectivas ideológicas distintas e protagonistas neste assunto, nomeadamente o continuismo e o descontinuismo. Segundo o continuismo, a progressão científica é linear, acumulativa e gradual. Porém, essa visão tão simples pode ser refutada por quem a negue com a perspectiva sugerida por Thomas Kuhn – o descontinuismo. Para Kuhn, a ciência é revolucionária, progredindo através de rupturas epistemológicas. Assim, a ciência normal analisa criticamente a realidade com base no paradigma em vigor em dado momento. Quando o cientista encontra uma analogia, algo incompatível com o paradigma aplicado, se for uma falha no paradigma, a ciência entra em “crise” . Durante esta “crise” científica, o novo paradigma é investigado, o novo paradigma capaz de resolver a anomalia. Após ser encontrado, este paradigma causa uma revolução científica – a ciência extraordinária é verificada. Ocorre uma ruptura epistemológica (descontinuidade) – o antigo paradigma é abandonado ao mesmo tempo que o novo é adoptado. Não há meio termo, a relação entre o antigo paradigma e o novo paradigma é uma relação de incomensurabilidade, isto é, um abismo existe entre os paradigmas (o antigo e o novo) – não há compatibilidade. Esta perspectiva permite, no entanto, que perante uma “crise” científica, haja um regresso a um antigo paradigma.

Em geral, o conhecimento científico pode ser caracterizado como metódico, sistemático, disciplinado, organizado, fiável, objectivo, rigoroso, provisório/aproximação do real, teórico-prático, não contraditório, aprofundado, activo e mediato. E ainda é importante destacar que para Popper o conhecimento vulgar era um ponto de partida para o conhecimento científico pois uma vez que o senso comum é superficial, uma análise metódica, sistemática e crítica poderia eliminar falhas e conferir rigor, transformando-o num conhecimento científico.

A conclusão que surge no horizonte de tudo que foi indicado neste texto é simples mas ainda assim pouco antropocêntrica – O ser humano busca o conhecimento integral do Universo. Esta busca aparenta ser infinita e faz cada um reflectir sobre a existência deste conhecimento. Haverá leis lógicas tão bem definidas para tudo no Universo? Limitadas pela nossa percepção fisiológica e por nossos instrumentos de observação e de medida, haverá algo que nos foge aos sentidos? Num tão vasto Universo, se único, haverá o simples caos de acontecimentos aleatórios? De onde o Universo veio, de onde a espécie Humana surgiu e que elo de conhecimento supremo tentamos alcançar durante milhares de anos? Podemos unificar as 4 interacções fundamentais da Natureza? E a Ciência estará alguma vez apta a encontrar respostas finitas, uma teoria do tudo? Sinceramente, duvido muito. Porém isso ainda não invalida essa possibilidade de superação intelectual humana. Resta continuarmos a buscar a fonte que serve para saciar a nossa sede de conhecimento.

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